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Sábado, Outubro 30, 2004
A DESVAIRADA NA PAULICÉIA
Capitulo 07: A Música Mais Triste Do Mundo. John Frusciante. Contra Todos. Los Hermanos.
Eu desconfiei quando perguntaram o meu nome. Mentira. Eu desconfiei no café da manhã. Mas acabei deixando passar. Mal sabia eu. Mas já passou de novo, afinal de contas não foi pra isso que eu vim aqui. Vai constar dos laudos porque faz parte da história. E porque, como todo mundo sabe, eu odeio fingir que nada aconteceu. Aconteceu, mas já passou.
Outras coisas também aconteceram na minha quarta semana de São Paulo. Começando pela 28ª Mostra BR de Cinema, que é tão disputada, mas tão disputada, que até agora eu só consegui ver dois dos oito filmes que, na minha modesta opinião, são indispensáveis. Em compensação, ganhei de presente a companhia do Ju, que com o nome que tem só podia ser mesmo uma ótima companhia. Então, se sábado é dia de fazer supermercado com os meus fiéis escudeiros (Igor e Josie) domingo é dia de ir ao cinema; e se não deu pra ver "Má Educação" (sim, Ju, é por isso que o país não vai pra frente) sobrou "A Música Mais Triste Do Mundo", que também podia se chamar "O Filme Mais Lindo Do Domingo", ou alguma coisa assim. O beijo do fim foi a minha parte preferida. Depois, lasanha de espinafre ao som de John Frusciante. E eis aí mais um nome para a trilha sonora de "A Desvairada na Paulicéia".
Na segunda-feira, como convém às segundas-feiras, classificados de empregos, emails, currículos, anteprojetos e ajuda vinda diretamente da Espanha [anjos da guarda não fazem mal a ninguém]. A decisão está tomada, e com o aval da dona estrela de cabelos vermelhos eu vou até aonde for possível. Isso significa que tenho um anteprojeto pra entregar na segunda-feira que vem e quem sabe provas e entrevistas de mestrado pra fazer nos próximos capítulos.
Dia seguinte, mais uma tentativa frustrada de ir ver a mostra. Em compensação, se não teve ingresso pro "Nina" teve mais uma vez a companhia do Ju e, graças a ele, teve também pizza de shimeji (que pra ser perfeita só faltava ser alucinógena), pizza de chocolate, passeio em Taboão da Serra, cd de presente e, se eu entendi direito, alguns minutos embaixo do oceano. Tudo isso, claro, ao som de John Frusciante.
Na quarta, quase teve USP, mas eu enlouqueci, fui no correio e até fiz as unhas, que [nunca é demais lembrar] estão intactas desde que eu cheguei aqui [minha mãe ficaria orgulhosa]; e graças à minha brilhante idéia de ir comprar os ingressos com duas horas de antecedência, conseguimos ver Contra Todos; um filme nacional, dos mesmos produtores de Cidade de Deus, que tem como destaque, na minha modesta opinião, a atuação de Silvia Lourenço, uma espécie de Chloe Sevigny brasileira. Depois, Juliano mais dotes culinários igual a sanduíche de mortadela, John Frusciante e tudo mais.
Na quinta tive um pesadelo. E até chorei. Mas eu juro que foi só um pouquinho.
Também tentei ir ver o Gram na Fnac, mas esqueceram de avisar pra eles que só podia começar o show com a minha ilustre presença. Resultado, não deu tempo de ir na janela e quando eu menos esperei já tinham apagado toda a luz. Em compensação [sim, tem até uma lei sobre isso] teve [re]encontro com a letra A [que na verdade é T] e quem sabe um dia até sobre um tempo pra uma caixa de bis branco.
Enquanto isso, meu terceiro show do Los Hermanos conseguiu ser tão maravilhoso quanto o segundo. Porque se não tinham os meus amigos pra cantar todas as músicas junto, como da outra vez, e se não teve abraço coletivo [que foi o melhor de tudo], teve um show impecável, com a presença dos metais (e que diferença fazem os metais!), um cenário de babar, e um Marcelo Camelo bem menos estressado. Sem contar que só assim, ao vivo, meu fiel escudeiro Igor Bento finalmente pode ver a luz, embora estivesse com os olhos rasos d'água, o que significa que teremos um Ventura em casa muito em breve.
"Eu não vou mudar não/Eu vou ficar são/Mesmo se for só/não vou ceder/Deus vai dar aval sim/o mal vai ter fim/e no final assim calado/eu sei que vou ser coroado rei de mim..."
Cenas do próximo capítulo: mais Atari, feriado, mais mostra br de cinema e a estrela de cabelos vermelhos
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ju em 5:43 PM |
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Sexta-feira, Outubro 29, 2004
INTERROMPEMOS NOSSA PROGRAMAÇÃO NORMAL...
Para comemorar o aniversário de um ano da casa de papel.
Muitos anos de vida...
a seguir: mais um capítulo de "A Desvairada na Paulicéia".
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ju em 12:38 AM |
din don:
Sexta-feira, Outubro 22, 2004
A DESVAIRADA NA PAULICÉIA
Capítulo 06: USP. Bienal. Lee. Oca. Mais Bienal.
No princípio éramos eu, meu primo Igor e o primo dele, Guilherme. Depois veio o primo do Guilherme, o Bruno; e depois o Daniel. E agora eu sou um bendito fruto entre os homens. É sério, juro. Atualmente eu moro, temporariamente, com 4 digníssimos rapazes que de vez em quando [pasmem!] até cozinham para mim. Ora, ora; o que será que meu bom Marcelão diria sobre isso...
Numa semana meio "do lado de dentro", primeira parada: USP. Não precisei de mais de uma tarde, na companhia de Ian e Renata, pra me apaixonar perdidamente. Não só pela FAU, mas por tudo, incluindo os defeitos. Sim, eu seria capaz de encarar o CRUSP, se fosse preciso. Só que por enquanto eu vou ficar babando do lado de fora; seleção pra mestrado agora só no semestre quem vem, pras turmas de 2005/2 (a seleção pro primeiro semestre de 2005 foi no mês passado). Não obstante, passeando pelos corredores da linda FAU, um cartaz me conduziu quase que coincidentemente, até a PUC de Campinas, que guarda entre seus tesouros um mestrado conveniente em Urbanismo, com uma linha de pesquisa mais conveniente ainda, em Teoria e História do Urbanismo. Decidir se vou ou não fazer esse mestrado foi a o que me fez abrir a porta pro "de dentro": como o processo de seleção é agora em novembro mais um mês na paulicéia aumenta a minha já urgente necessidade de emprego, além de tirar da minha viagem o resto do caráter de "quase férias" que ela tinha. Para uns seria como acabar a brincadeira; para mim seria quase perfeito.
Depois de passar toda a terça-feira pensando basicamente nisso, na quarta fui, finalmente, ver a Bienal, que teria sido perfeita se não fosse por uma surpresa. E cada dia mais eu tenho mais certeza de que não gosto de surpresas. E mais uma vez passei pro lado do de dentro, mas lá só haviam perguntas. Enfim. Então a Bienal, aos meus olhos, tem muita coisa boa (como a instalação com caroços de milho, a instalação com maquetes de tecido e máquinas de costura, o fusca pendurado, o realejo, alguns quadros e algumas fotos, uma animação com o Tom Cruise e o Barney, e algumas ¿ocas¿), muita coisa sem graça (como a instalação ¿paraíso do mosquito da dengue¿, os galhos secos, os pássaros que a gente não pode tocar, a instalação das portas e o vídeo da circuncisão) e algumas coisas geniais (como a instalação das caixas de som que reproduziam os sons de uma noite de reveillon, a instalação que pedia a doação de idéias, a instalação com aquele instrumento que eu sabia que devia ter anotado o nome, o ateliê do artista e a sala dos quadros de boneca).
No dia seguinte fui finalmente encontrar a minha querida Lee na Estação Ana Rosa. Foi quando fui ver a Bienal de novo, dessa vez como "guia", com mais calma e sem que o coração quisesse sair pela boca. Vale ressaltar que nós até fomos na OCA (sim, eu toquei uma obra do Niemeyer!!!!!), onde esta acontecendo uma exposição chamada Fashion Passion, que conta a história da moda no século XX, e até tentamos entrar pra ver a mostra, mas fomos barradas na porta pelo grito ensurdecedor de várias crianças enlouquecidas. E também pelos 10 reais que eles estavam cobrando de entrada. Mas eu prometo tentar mais uma vez. Quase no fim da noite um email trazendo boas notícias, que talvez possam ter a ver com a palavra "emprego"; macarrão feito pelo Dani (o quinto elemento) e muito papo com a Lee. No fim da noite bife mal passado feito pelo Igor (viu, eu disse que eles cozinham pra mim) e vontade de ouvir Nando Reis até amanhã.
Não matei minha vontade e deve ser por isso que hoje meu nariz acordou revoltado. Ou então é o dia mundial da Ju espirrar e ninguém me avisou. A verdade é que se eu estivesse contando já teria passado dos duzentos espirros. E se é verdade o que a Mari me contou, que a cada três espirros seguidos você tem direito a um pedido (o que seria muito justo, considerando que espirrar três vezes seguidas pode ser considerado um suplicio), então...bom, então eu terei novidades ótimas em muito breve (tipo amanhã, ora bolas, depois de todos esses espirros - atchim!).
Cenas do próximo capítulo: galeria do rock, 28º mostra br de cinema, entrevistas.
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ju em 8:08 PM |
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Segunda-feira, Outubro 18, 2004
A DESVAIRADA NA PAULICÉIA
Capitulo 05: Aurora. Trash 80's. Mais Funhouse. Ludovic.
Pra não dizer que eu não tenho rotina, todos os dias o Igor deixa as portas (todas) do guarda-roupa escancaradas, e as gavetas abertas, claramente me dando língua. Todos os dias eu fecho portas e gavetas (todas), depois de ele ir pra aula e antes de ir dormir. Pra não dizer que eu não tenho problemas pequenos e mesquinhos a me martelar os macaquinhos no sótão, dias antes de vir pra cá minha mãe teve a brilhante idéia de me dar um par de sapatos novos de presente. Sapatos bonitos e confortáveis com os quais eu pudesse andar a cidade inteira, calçada, achando ótimo (quem me conhece bem sabe que pra mim ótimo mesmo é ficar descalça), enfim. O presente da minha mãe é de fato lindo. A surpresa é que ele não é nada confortável. Surpresa porque, obviamente, eu os experimentei na loja antes de comprá-los, e na ocasião eles pareceram ótimos. Mal sabia eu que tudo não passava de uma armação desonesta para conseguirem uma vaga na minha mala. É impressionante o que alguns sapatos são capazes de fingir pra conseguirem o que querem. E o fato é que, depois de três sofridas tentativas, eu tenho um lindo par de sapatos, que eu usaria tranqüilamente para andar a cidade inteira calçada, achando ótimo, mas que só conseguiu chegar até a Vila Madalena (num ato quase heróico dos meus pés), dar uma volta pela ESPM (porque é aqui pertinho) e conhecer um bar no Bexiga (porque de carro fica mais fácil, embora não tenha dado pra dançar por muito tempo). Enfim. Ainda bem que eu trouxe o meu allstar.
Ainda não consegui conhecer a USP, dessa vez por causa da tal semana do saco cheio. Mas tenho uma entrevista marcada na Belas Artes pra essa semana (torçam!). também não consegui lavar a roupa porque na quinta-feira apareceu um anjo de codinome Ivonete por aqui, que arrumou a casa e lavou a louça e a roupa de todo mundo. Veja só que coisa. Milagres acontecem todos os dias. Na quinta-feira também foi dia de ir conhecer o Bexiga, o bar Aurora e a banda Briefing Mal Passado; tudo junto de uma vez. Gostei do lugar, apesar de ele ter despertado a minha claustrofobia; e também gostei de banda (que toca animadamente perolas do samba e da mpb) apesar de não ter me dado vontade de dançar o bastante pra tornar a noite realmente divertida.
Nada que não tenha sido remediado na sexta-feira, numa festa chamada Trash 80's, que todo mundo que foi criança e adolescente nos anos 80, e gostou, deveria ter a oportunidade de ir. Eu não só pude ouvir e dançar, muito, coisas como Rádio Táxi, Léo Jaime, Metrô, Dominó, Polegar, Xuxa, Balão Mágico (como direito à coreografias e clip no telão), Madonna, Cindy Lauper, Sidney Magal, Wando, Gretchen e muitos outros toscos, como pude presenciar, ao vivo, o encontro musical emocionado entre Luciano do Trem da Alegria e Tobby do Balão Mágico (a Tiazinha também estava lá, mas essa parte é irrelevante); sem falar do show da dupla ..., que desenterraram até os temas daqueles famosos seriados japoneses. Mais divertido impossível. E por isso eu dedico a minha noite de sexta-feira a Elias Ximenes do Prado Neto, pelos temas de super-heróis (a boate quase veio a baixo na hora do "eu tenho a força/ sou invencível...."); a Karine Tito, por todas as músicas do Balão Mágico; a Marilia Adão por "como uma deusaaaaaaa/ você me mantem..."; a Marcus Vinícius Dantas Linhares, pelo "meu iaia, meu ioio" e a Mariana Adão pelo conjunto da noite.
No sábado mais Funhouse; mais caipisaque de morango, mais príncipe de dreads (que acabou virando sapo, imagine), mais noite divertidíssima, estrelada pelos Faichecleres, uma banda curitibana que tem o melhor baterista que eu já vi tocar na vida até o momento. Tudo isso na companhia ilustre dos meus fiéis escudeiros (Igor e Josie) e com participação especial da Dri e do Tiago, que contribuíram, e muito, para o sucesso da noite.
No domingo o tão esperado show do Ludovic. Favor não confudir os nomes: é Ludovic, e não Ludov. E é nessa parte que eu engasgo. Engasgo porque eu nunca vi tanta fúria e tanta paixão juntas, em cima de um palco, em forma de música. Engasgo porque eu nunca tinha visto um vocalista tão intenso. Engasgo porque poucas bandas me impressionaram, e me emocionaram, da forma que Ludovic me impressionou e me emocionou. E engasgo principalmente porque sei que não vou achar as palavras adequadas pra expressar o quão foda foi esse show. Assim como não vou saber dizer como aquele cachorro quente tava gostoso; nem que açaí batido com morango é realmente muito bom; muito menos como é linda a 9 de Julho vista do vão do MASP.
Ai, ai.
Nota da Autora: para saber, ver e ouvir o Ludovic.
Cenas dos próximos capítulos: USP. Bienal, Oca (agora vai!)
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ju em 1:09 PM |
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Quinta-feira, Outubro 14, 2004
A DESVAIARADA NA PAULICÉIA
Capítulo 04: Funhouse. Galeria dos Pães. As Bicicletas de Belleville. Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos.
"As Bicicletas de Belleville" não é só uma animação digna de Oscar. É uma obra de arte. De uma beleza lancinante, que eu não sei qualificar, ou com o que comparar. Mas na etapa "metrô" do caminho de volta pra casa, vindo do HSBC Belas Artes, eu cheguei à conclusão de que "As Bicicletas de Belleville" é a animação mais bonita que eu já vi na vida. A chuva que caiu no fim da tarde aqui em São Paulo me pegou desprevenida e pensativa na etapa "a pé" do caminho de volta pra casa. Depois de dez dias foi como se a chuva viesse, distraidamente, apertar o pause.
Antes disso, no domingo, eu me apaixonei (platonicamente, obviamente) pelo barmen da Funhouse, uma espécie de Boemia paulista. Impossível não notar a semelhança entre os dois lugares e, sendo assim, impossível não me sentir em casa. Talvez por isso, e também pelo príncipe de dreadlocks, e também por aquele delicioso drink de morango que eu me esqueci o nome (mas que certamente começa com a palavra "strawberry"), e também pela música, pela decoração e pela maravilhosa Jukebox no segundo andar, a Funhouse já esteja no topo da minha lista de lugares preferidos por aqui. Na segunda-feira pedimos (eu e meus fiéis escudeiros, Igor e Josie) pizza e, como toda brincadeira de casinha tem que ter comidinha, fizemos supermercado. No feriado, café da manhã com o meu querido Ian (de volta da sua mini-turnê com o Ludovic), algumas amigas dele e o Igor, na já tão falada Galeria dos Pães. Aí hoje fui conhecer a ESPM e saber do processo de seleção de pós-graduação na Belas Artes. Depois "As Bicicletas de Belleville" (e a saudade do meu cachorro). E veio a chuva apertar o pause. E sem que eu quisesse, ou sem que eu pudesse evitar, meus pensamentos saíram por aí sozinhos. De volta não me deram nenhuma explicação. Nem me disseram o nome disso que eu estou sentindo agora...mas o fato é que, mesmo sabendo da saudade imensa que vou sentir da minha mãe, da minha família, dos meus amigos, do meu cachorro e, sim, da minha cidade, quanto mais eu ando pelas ruas da Vila Mariana, quanto mais eu vejo São Paulo, quanto mais eu imagino (sonho) as possibilidades, menos eu penso em voltar. Mal posso ver uma placa de aluga-se.E eu já quase posso sentir, o furacão prestes a sair pela minha boca, pronto pra virar tudo de cabeça pra baixo.
Ainda não rui nenhuma unha desde que cheguei aqui. E amanhã vou aprender a lavar roupa.
Cenas dos próximos capitulos: USP, Bienal. Oca, Ludovic
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ju em 2:52 PM |
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Domingo, Outubro 10, 2004
A DESVAIRADA NA PAULICEIA
Capitulo 03: Kill Bill Vol 02. Pastel de palmito. Pinacoteca. Atari. Cartas mentais.
Enquanto eu esperava os vintes minutos que faltavam pra sessão de Kill Bill Vol. 02 no HSBC Belas Artes, eu me dava conta de que existem poucas coisas no mundo tão fascinantes quanto cidades. Observar como elas existem ao meu redor, como respiram e vibram com uma intensidade, que certamente depende de alguma coisa além do seu tamanho; observar como as pessoas respiram o seu ar e como elas, as cidades, respiram as pessoas; observar os prédios, ou a ausência deles, o horizonte ou a ausência dele, o céu...; observar, de tudo e com os olhos mais curiosos; observar as placas das estações do metrô, as avenidas e suas luzes, as pessoas e seus olhos; observar, de tudo e com os olhos mais curiosos é dos passatempos o que mais me interessa. Quase automático. Uma ação cotidiana que eu faço sem pensar. Como uma televisão bem (muito) mais interessante.
São Paulo, na minha outra televisão, era cinza e louca. Como um monstro. Um monstro barulhento, cinza e com muitos, milhões, de olhos. Mas o monstro me engoliu. E a surpresa é que por dentro o monstro é colorido. Nessa televisão, totalmente tecnicolor. Todas as cores. Inclusive as que eu não sei o nome. Inclusive os cinzas. Todas as cores.
Por Kill Bill Vol. 02 eu continuo devotando todo o meu amor à Quentin Tarantino, e pelos cartazes na parede eu acho que o HSBC Belas Artes vai se tornar o meu cinema preferido por aqui. No sábado o sol deu as caras e eu fui comer o melhor pastel de palmito do mundo (e o melhor sanduíche de salame do mundo) no Mercado Municipal. Na verdade eu não costumava gostar de mercados. Mas o que dizer diante de todas aquelas cores e cheiros? O que dizer diante daquele prédio? O que dizer, meu deus, diante daquele pastel de palmito? [Querido Ian...é um pouco estranho pra mim escrever uma carta pra você estando na sua cidade. Mas levando em conta que você vai ficar longe todo o fim de semana talvez não seja tão sem sentido assim. Eu só queria dizer que lembrei de você hoje, por causa do sol e do pastel, e que quase pedi pra ir junto na viagem com o Ludovic...à propósito, você já escreveu o conto que criamos no ônibus aquele dia?]. Continuando o dia de turista, andamos (eu, Josie e Igor - meu guia número 01) até a linda Estação da Luz, passando por cortiços em prédios coloniais belíssimos e um sebo de discos no meio da passarela, para atravessá-la e dar de cara com a Pinacoteca do Estado. [Querida Mari...lembrei muito de você no momento em que pus os olhos no prédio da Pinacoteca do Estado porque sei que só você entenderia o fato de eu já ter sonhado com aquele lugar antes, sem achar muito brega essa história de dejavú...acabo de dar um sorriso, pensando no novo jeito que encontramos de dizer que nos amamos, sem propriamente dizer que nos amamos...já sabe né? Diga à Lita que entrei numa loja de bichos de pelúcia onde os Pop's fariam a festa e que o meu amor por ela também é gigantesco. P.s.: o Igor está fazendo nosso almoço nesse momento, talvez o mundo tenha salvação] Depois de ver as obras de arte (as em exposição, as do acervo e as de carne e osso - é verdade, eu juro! Umas obras de arte de carne e osso passeando pelos corredores, acredita?) metrô de volta pra casa (eu já contei que adoro o metrô, as estações e tudo o mais?) e a hercúlea tarefa de passar as fotos (em breve aqui) do celular pro computador. Ah, a tecnologia!
À noite, depois de muito escolher e muito rodar (eu preciso dizer que esqueci os documentos em casa e que precisei voltar em casa pra pega-los e provar que eu era maior de idade e podia entrar no lugar? Não? Ah, que ótimo. Assim me poupo dessa vergonha) fomos dançar a noite toda no Atari Club [Querido Pumpkim...Donnie Darko me fez tremer inteira, por causa de algum sentimento que eu ainda não sei dizer qual foi. Sei que você é a única pessoa que pode me ajudar quanto a isso. Mas não é disso que eu quero falar. O fato é que acabo de encontrar o lugar perfeito pra Devotchka tocar e a turma da Catie se divertir horrores. Uma boate, com os monstrinhos do Packman e seus fantasmas pintados numa parede e as naves do Megamania na outra. No andar de baixo tem umas maquinas de fliperama e em cima, ali daquele lado, um palco improvisado onde tocam bandas alternativas boas e desconhecidas. O dj podia ser um dos nossos amigos, tocando só pra gente The Smiths, Placebo, Underwold, New Order, The Cure, The Wannadies, Fausto Fawcet, Madonna, The Strokes, Le Tigre, Viollent Femmes, Joy Division, Smashing Pumpkins, Radiohead e muitos, tantos, outros dos nossos preferidos, que certamente tocariam na nossa boate, se tivéssemos uma. Acredite, você e os outros estiveram lá comigo, no meu pensamento a noite toda, cada vez que o dj, nosso amigo, tocava animadamente uma das nossas músicas - especialmente Idioteque. Um lugar chamado Atari Club...definitivamente a vida não é justa.] e ver a Paulista amanhecendo. Mais que linda.
[Querido "A"...por onde será que você anda?]
Cenas do próximo capítulo: Funhouse e As Bicicletas de Bellevile
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ju em 4:03 PM |
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Sexta-feira, Outubro 08, 2004
A DESVAIRADA NA PAULICÉIA
Capítulo 02: Belas Artes. Aula de metrô. Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança. Gibiteca. Vila Madalena. Nando Reis.
Chamei a Paulista de linda antes de as luzes se acenderem e gastei um adjetivo.
O que pode ser mais que lindo?
Mas, me adianto. Vamos pelo começo.
No meu terceiro dia de São Paulo dei uma volta pela Vila Mariana, dessa vez com apenas um dos meus guias e anfitriões, querendo morar em cada uma das vilas que ele me mostrou, até chegar na Universidade de Belas Artes e querer estudar lá pelo resto da vida; mas como a coordenadora de pós-graduação não estava fiquei só por dez minutos. Tempo o bastante pra pegar todos os prospectos possíveis e ainda dar uma olhadinha no quadro de estágios. Seguindo para a estação Ana Rosa a minha primeira aula de metrô foi considerada um sucesso, mas o show da Adriana Calcanhoto foi cancelado. Felizmente ninguém enjoa da Paulista em um dia e o Parque Trianon é lindo de morrer, apesar das bolhas que tomaram conta dos meus pés. E com bolhas nos pés e tudo andamos mais um bom pedaço na Paulista e nos juntamos ao Ian rumo ao Espaço Unibanco pra ver o filme mais...o filme mais...mais...Ai! Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças é um daqueles filmes que eu não sei adjetivar. Porque é lindo. Porque é inteligente. Porque é perspicaz. Porque é bem escrito e bem dirigido. Porque tem uma fotografia incrível e uma trilha sonora perfeita. Porque me fez pensar em tantas coisas e em tantas lembranças. Porque é muita feladaputice. É toda a feladaputice do mundo junta. E depois disso sair de lá e descobrir a famosa garoa de São Paulo. E mais um pouquinho e perceber que tinham acendido as luzes na Paulista. Mais que lindo...Fazendo hora na gibiteca no SESI pensei no Regis, no Oswaldo, no Phillip e em todos os meus amigos que considerariam aquele lugar um paraíso. Deixei o meu guia principal ir assistir aula e fui com o Ian descobrir os caminhos da Vila Madalena até encontrarmos o bar (Mercearia São Pedro) onde estava sendo lançado o livro "Uma Antologia Bêbada", que reúne contos de 17 jovens escritores brasileiros, todos ambientados nesse mesmo bar cujo garçom mais famoso é, adivinhe, piauiense. Foi um passeio rápido que valeu pela conversa e pelo exercício de cara de pau que foi convidar Marcelino Freire pra vir aqui. Ora, eu tinha que fazer todas aquelas bolhas valerem a pena afinal (sabia que a Vila Madalena é cheia de ladeiras?...aliás, sabia que São Paulo inteira é cheia de ladeiras?)
No dia seguinte, quarto dia de São Paulo, a primeira providência do dia dizia respeitos à compra de bandeides (não, suas bolhas, vocês não vão me vencer); a segunda à envio de emails e currículos. Depois do almoço a prova de fogo: sair de casa sozinha, sem guia, e conseguir voltar, além da prova no metrô claro. Acho que passei com louvor. Fiz todo o caminho de casa até a Paulista vi uma exposição de fotos no Itaú Cultural, tomei uma limonada suíça no café da Fnac e soube do show do Nando Reis. Bem ali, na livraria, pra quem tivesse passando. Eu teria visto o show sozinha, já que a Josie só chegou no fim, se não fosse por um cara "B", com o dobro do meu tamanho, ter resolvido assistir o show bem na minha frente. Um cara "A" pedir pro cara "B" mudar de lugar porque ta atrapalhando a moça é bonitinho não é? Eu também achei. E também adoro"Allstar" (na verdade é uma das minhas preferidas) e também gosto de abraço. Quando a Josie chegou o número já tava anotado e o dia tinha sido tão bom que eu nem me importei de ir comer no Mc Donalds. Depois metrô de volta pra casa e descanso pras bolhas. Que amanhã tem mais.
Cenas do próximo capítulo: Kill Bill Vol. 2, fim de semana, Mercado Municipal, Pinacoteca, Casa Cor
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ju em 12:18 PM |
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Terça-feira, Outubro 05, 2004
A DESVAIRADA NA PAULICEIA
Capítulo 01: A viagem. A Paulista. O Embu. A festa. A Blockbuster.
Aí eu tenho uma fada madrinha de cabelos vermelhos e nome de estrela; de estrela mais brilhante na verdade. Foi assim que de uma hora pra outra, depois de uma conversa rápida e 4 dias pra arrumar tudo, eu fui parar no aeroporto Santos Dummont num domingo de tarde. E pela primeira vez eu voei. E tinha algodão por todos os lados. Então, depois de horas de vôo, conexão, Miguel, mais horas de vôo, aeroporto errado, ônibus, Miguel e mais minutos de conversa eu estava em São Paulo procurando o Igor, que era a única pessoa esperando por alguém, além dos taxistas, no aeroporto inteiro. E, maravilha das maravilhas, fazia frio.
No primeiro dia eu não fazia idéia de como é bom sentir frio mesmo com o sol brilhando. Peguei meus dois guias oficiais e anfitriões e o meu cachecol colorido e fui conhecer o porteiro da manhã, saber onde ficam a padaria, os restaurantes e o supermercado mais próximos e andar por algumas ruas que eu não gravei o nome, até chegar na Av. Paulista. No primeiro dia eu não fazia idéia de como a Paulista é imensa; e linda. Todos aqueles prédios e todas aquelas pessoas. Alguém que algum dia tenha desejado muito uma coisa e tenha conseguido, por mais boba que a coisa pudesse parecer, vai entender do que eu estou falando, porque no meio do caminho, passeando pela Paulista, eu toquei o MASP. E sim, muitas vezes eu fiquei de boca aberta, olhando tudo em volta, com cara de quem nunca tinha visto. Ora bolas; eu nunca tinha visto. Eu nunca tinha visto tamanha diversidade de prédios, de coisas e de pessoas. E alguém que algum dia tenha desejado muito uma coisa e tenha conseguido, por mais surreal que a coisa pudesse parecer, vai entender do que eu estou falando, porque antes do almoço e no meio de todas aquelas pessoas, eu pude abraçar o Ian. E fomos os dois, e mais os meus dois fiéis guias e anfitriões, comer um cachorro quente enorme num lugar chamado Black Dog; e fazer a digestão, e babar, e assistir desenho animado e entrar em desespero num lugar que deveria existir em todas as cidades: a Fenac. Depois disso uma visitinha nuns ling-lings e no meu primeiro dia de Paulista eu ficaria para sempre tranqüilamente sentada naquele banquinho observando as pessoas.
No meu primeiro dia de São Paulo e não fazia idéia de como essa cidade é imensa. E segundo os meus gentis guias e anfitriões, ainda não faço. Mas já no meu primeiro dia de São Paulo eu fiquei sabendo que atravessando uma rua você já pode estar em outra cidade e que do P.O. dá mesmo pra ver um pôr-do-sol lindo, e que quando eu pensava que ainda estava em Taboão da Serra na verdade eu já estava em Embu das Artes, e já tinha conhecido todas as pessoas e ganho um pirulito de presente e já era uma festa de aniversário e eu fiquei sabendo de Pussymen e Ludovic. Na minha primeira noite de São Paulo eu dormi, contente, um sono pesado e com sonhos indescritíveis, que segundo consta resistiu a vários toques de um despertador que eu nem me dei conta que existia.
No meu segundo dia de São Paulo eu risquei uma parede e vi um vídeo aonde o Pato Donald era nazista. Também pude ver, pelas janelas dos ônibus que me levaram de volta à Vila Mariana, a cidade crescendo; de um lado seguindo o seu próprio caminho, quase como uma colagem de casas sobre os morros, e do outro seguindo o desenho dos urbanistas e se adaptando à soluções de engenharia incríveis, na tentativa de fazer isso tudo funcionar. No meu segundo dia de São Paulo eu comi ravióli e pus os pés numa Blockbuster pela primeira vez na vida; arrumei o apartamento que sem perceber eu já chamei de "minha casa" quando fui dar o endereço e liguei pra minha mãe pra dizer que amo. Acabei o dia vendo Alguém Tem Que Ceder na sessão da tarde, Kill Bill Vol. 1, de novo pra refrescar a memória antes de sexta-feira, na hora da novela e Donnie Darko antes de dormir.
Nos meus primeiros dias de São Paulo acho que alguma coisa já acontece no meu coração.
Cenas do próximo capítulo: Aula de metrô, Faculdade de Belas Artes, Adriana Calcanhoto e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança.
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ju em 10:55 PM |
din don:
Sábado, Outubro 02, 2004
VOTE NONONO
Recebi esse texto por email e quis publicar por acreditar que se trata de uma informação válida. Boa eleição pra todo mundo.
Você sabe a diferença: Voto Branco x Nulo???
O voto em BRANCO, ao contrário do que parece, não significa que o eleitor não escolheu nenhum candidato, mas sim que ele abdica de seu voto. Não é um ato de contestação e sim um ato de CONFORMISMO! Os votos em BRANCO significam "TANTO FAZ" e são acrescentados ao candidato de maior votação no último turno. Ou seja, se existem dois candidatos Tubarão e Galinha, Tubarão termina com 52% dos votos, Galinha recebe 35% dos votos, 10% são votos em branco e 3% são nulos, isso significa que 3% dos eleitores não querem nem Tubarão nem Galinha no poder, mas 10% dos eleitores estão satisfeitos tanto com Tubarão como com Galinha, o que vencer está bom. Neste exemplo, Tubarão tem uma aceitação de 62% do eleitorado. O problema é que existe muita pressão para a escolha de um candidato e pouca explicação do que escolher significa. Já o voto NULO é um protesto válido. Ele quer dizer que o eleitor não está satisfeito com a proposta de nenhum candidato e se recusa a votar em outro. Esse tipo de voto é importante e é o que efetivamente faz a democracia, pois a existência dele permite que o eleitor manifeste a sua insatisfação. O voto NULO, ao contrário do que parece, é um voto válido. Só que ninguém fala dele, nem mesmo nas instruções para votação. Explicam como votar em um candidato ou como votar em branco, mas ninguém explica como anular um voto. Pois bem, para anular um voto é preciso digitar um número inexistente no número do candidato. Se um eleitor experimenta votar em branco, o terminal eletrônico avisa "Você está votando em branco" e então o eleitor pode confirmar, ou corrigir. Mas se o eleitor coloca um número inexistente num terminal, ele acusa "Número incorreto, corrija seu voto". Assim, os votos NULOS são desencorajados. Por que os votos nulos são desencorajados? Por que ninguém fala deles? E por que eu falo deles? Porque, se na eleição entre Tubarão e Galinha, Tubarão terminasse as eleições com 42% dos votos e Galinha com 30%, 10% de brancos e 18% nulos as eleições teriam que ser repetidas e nem Tubarão e nem Galinha poderiam participar das eleições naquele ano. Resumindo, o voto NULO, do qual ninguém fala e que o terminal acusa como "incorreto", é o único voto que pode anular uma eleição inteira e remover do cenário todos os candidatos daquela eleição de uma só vez. Se nenhumdos candidatos conseguir maioria (mais de 50%) no último turno, as eleições têm que ser canceladas! Os candidatos são trocados e novas eleições têm que ocorrer. Então, contribuindo para a campanha do voto consciente, se alguém estiver votando em Tubarão ou em Galinha, mas preferia não votar em nenhum dos dois, pode optar pelo voto "incorreto", o voto NULO. Quem sabe um dia Tubarão e Galinha saem do cenário e os eleitores podem votar em Golfinho... Não seja obrigado a votar em quem você não quer no poder!!
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ju em 6:14 PM |
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