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Quinta-feira, Novembro 25, 2004
INTERROPEMOS NOSSA PROGRAMAÇÃO NORMAL...
Para inaugurar a sala 8 e contar da volta do cinema verde.
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Terça-feira, Novembro 23, 2004
A DESVAIRADA NA PAULICÉIA
Capítulo 10: Sebos. Bop Bistrô. Muholland Drive. Dois Perdidos Numa Noite Suja. Cozinha Confidencial. Semana Preguiçosa. Notas do Humano Sobre Impressões do Ser. A Catedral da Sé. O lugar onde os pombos dormem. O dia dez. As oficinas.
Na sexta-feira imediatamente seguinte ao capítulo anterior, comprei dois livros [As Meninas, Lygia Fagundes Telles; Anarquistas Graças a Deus, Zélia Gattai] num sebo que eu deveria ter ido conhecer no capítulo anterior. Metade do que sobrou das minhas economias depois disso, eu deixei com um cara simpático que faz [e pendura] umas camisetas lindas ali em algum lugar da Augusta. A outra metade deixei, junto com um pouco da tristeza que veio naquele email, no Bop Bistrô: um lugarzinho muito bonitinho, mas que tem uma torta de maçã bem ordinária, aonde eu fui parar, graças à minha amiga Mariana Arraes, pra ver o show de meu conterrâneo Mirton de Paula. Acabei não vendo o show, que acabou não acontecendo direito. Mas a noite valeu, porque foi bom ter visto e batido um papo [ainda que rápido] com o criador do Freak Lagarta e da Lamparina Elétrica; porque a Josie já é engraçada, imagine então com uma marguerita na cabeça; e porque tocar a campainha com um prato de brigadeiro de colher na mão é a melhor forma que eu conheço de pedir desculpas por uma grosseria gratuita.
O fim de semana imediatamente seguinte ao capítulo anterior teria sido um fim de semana tranqüilo, se a escolha de sábado a noite não tivesse sido Mulholland Drive [ou Cidade dos Sonhos]. Definitivamente não se pode ter um fim de noite e um dia seguinte lá muito tranqüilos [do ponto de vista do ¿o que diabos aconteceu aqui?¿], depois de ver um filme de David Lynch. Especialmente se esse filme for Mulholland Drive, sem dúvida o melhor Lynch que eu já vi. O que não significa que eu tenha entendido muita coisa. Interpretações à parte vou dar o braço a torcer e dizer que as cenas do "silêncio" são mesmo as melhores. Quanto à Dois Perdido Numa Noite Suja, tudo o que eu posso dizer de bom é que Arnaldo Antunes é realmente um letrista de primeira [N.A.: leia mais sobre esses filmes aqui, em alguns dias].
Então, domingo é o dia mundial dos muitos minutos embaixo do oceano, e na segunda-feira imediatamente seguinte ao capítulo anterior eu não fiz nada. Assim como não fiz nada na terça, nem na quarta nem no resto da semana inteira, além de ler um livro meio idiota chamado Cozinha Confidencial [um livro de um chef metido que resolve contar todas as nojeiras, orgias e bizarrices alucinógenas que aconteceram nas cozinhas em que ele trabalhou, com a desculpa de "desglamourizar" a profissão] e fazer coisas ["banco" e "correios"] que eu deveria ter feito no capítulo anterior, porque São Pedro resolveu abrir as torneiras sobre São Paulo, e acabou sendo uma semana muito fria e muito molhada. Felizmente, eu recebi uma carta da Meg e muitas visitas do Ju. Assim a semana passou num piscar de olhos e no fim de semana deste capítulo até fez sol, embora as temperaturas durante a noite tenham sido bem baixas.
Na sexta-feira deste capítulo ainda estava chovendo, mas mesmo assim fui convocada para mais um passeio pela 25 de Março, dessa vez em busca de tecidos para figurinos, na companhia do meu ilustre anfitrião Igor Bento, e das suas simpáticas amigas Paula e Carol. Na verdade eu fui torpemente ludibriada, porque se eu acordei antes das oito numa sexta-feira chuvosa foi movida pela promessa que usava nomes como "Galeria do Rock" e "Catedral da Sé", e que não passarm mesmo da promessa. Mas tudo bem, no fim acabou sendo divertido. E assim, no sábado deste capítulo, eu e o Ju fomos convocados pra "assistentes de produção" da peça "Notas do Humano Sobre Impressões do Ser ou 17 Corpos em Exercício Cênico", montada pelo grupo de teatro da ESPM. Um trabalho voluntário muito bem pago, não só pela diversão envolvida, como pela oportunidade de conhecer pessoas como a Rúbia, diretora da peça.
Sobre a peça em si, eu gostaria de dizer muitas coisas além de "Vejam! É muito boa!". Queria mais do que elogiar o figurino e o cenário. Queria mais do que falar sobre aquele chiclete tão impregnado de sexualidade. Queria mais do que cair no lugar comum de dizer que adorei, que a idéia é muito boa e que a interação público-peça funcionou muito bem...Eu gostaria de dizer ao menino da flor, por exemplo, como a sua cena ficou tocante, como ela me pareceu verdadeira e como ela me fez pensar em todas as vezes que eu compliquei as coisas; à Thálita eu gostaria de falar sobre a sua presença no palco, tão forte, tão à vontade; ao menino dos cabelos compridos e cacheados eu gostaria de dizer que, na minha opinião, foi ele o responsável por uma das melhores cenas, tanto sozinho como acompanhado por aquele outro moço, à quem eu gostaria de dizer que estava engraçadíssimo com o seu violão. Gostaria de contar à Paula sobre como a sua risada gostosa ia ecoando dentro de mim, enquanto se transformava em histeria e em gritos de desespero, e sobre o quanto eu adorei a espuma do creme dental vazando pela sua boca, enquanto a outra tagarelava, e tagarelava e tagarelava tanto e tão convincentemente que nada me faz crer que ela não tenha tomado chá de agulha de vitrola. Gostaria de dizer à Carol sobre a minha angustia de claustrofóbica, enquanto ela se enrolava toda em rolopac, e elogiar a beleza da cena do beijo e da água. À menina da caneta eu queria contar da minha vontade de subir ao palco e ajudá-la a se riscar. Ao meu primo Igor eu gostaria de dizer que de fato se liberte das camisas, que faça amor com aquele texto de Clarice, e que com ele tenha um filho, à quem ele possa chamar de objetivo. Para menina de costas, como os cabelos pregados com fita, eu gostaria de falar da beleza plástica dessa imagem e de como eu quis fotografá-la. Àqueles que eu não conheço, não sei o nome ou não sei como identificar eu gostaria de dizer "Parabéns, estavam todos muito bem". Ao Otávio eu gostaria de dar mais "parabéns" e mais "parabéns" e mais "parabéns", por ter dirigido tão bem essas pessoas e costurado tão bem essas histórias todas de cada um. À Rúbia, além desses mesmos parabéns, eu também gostaria de dizer "Muito, muito prazer em conhecer". À todos: uma salva de palmas, e muita merda, obviamente.
No domingo deste mesmo capítulo, depois de uma madrugada cheia de aventuras e vento gelado em busca da gasolina perdida, ganhei de presente do Ju um passeio, pra aproveitar o sol, que começou matando a minha vontade de comer bife e batata frita, passou pela feira de antiguidades do MASP com direito à uma paradinha diante da vista da Av. 9 de Julho [até então a vista mais bonita da cidade na minha opinião], depois me levou pela mão até a Catedral da Sé, onde eu não pude conter as lágrimas, diante de tanta beleza e de tanta energia; continuando pelo centro, até chegar no Vale do Anhangabaú [atual vista mais bonita da cidade na minha opinião], passando pelo lugar onde os pombos dormem na volta e finalizando com água de coco, antes do segundo round do nosso trabalho voluntário de "hostess" da peça de novo. Pra fechar o domingo, cinema, pipoca, pão de queijo e mais uma delícia que eu não lembro o nome.
Na segunda-feira, que já devia pertencer ao próximo capítulo, o dia dez me trouxe pesadelos e as palavras acabaram bagunçando tudo. Mas depois de uma divertida oficina de prosa no Itaú Cultural, ministrada pelo escritor pernambucano Raimundo Carrero [como parte do evento Encontros de Interrogação], e de uma conversa pra botar as palavras no lugar, a certeza crescente de que é nessa cidade que eu quero morar pelos próximos anos. A passagem marcada pro dia dez parece só representar a oportunidade de me despedir direito de tudo e de todos de quem eu não me despedi há quase dois meses atrás, quando isso ainda era uma viagem de férias, um presente de formatura. Voltar pra São Paulo me parece ser só uma questão de tempo. E não de muito tempo. Não há nada de concreto, é verdade. E as coisas não são tão simples, eu concordo. Mas há o meu desejo, a minha força de vontade e a minha determinação. E isso deve fazer alguma diferença. Sem falar nas simpatias de ano novo e na novena milagrosa que a Josie sabe fazer.
Por fim, na terça-feira, que também deveria pertencer já ao próximo capítulo, fez sol, como o de domingo, e eu lavei roupa, mesmo sem ter onde pendurar. Mais uma oficina de prosa, desta vez com o escritor João Silvério Trevisan. Mais vontade de voltar a estudar. Mais vontade de escrever. Um livro [Ana em Veneza, João Silvério Trevisan] ganho num sorteio. Bate-papo rápido com oficineiros e autores no café do Itaú Cultural. Surpresa de volta pra casa: exemplares de "O Estado do Piauí - O Mais Charmoso do Brasil", jornal editado pelo meu já querido Joca, me esperando na portaria. Pensamento no meu primo Marco, que faz aniversário, e na principal parte de sua poesia preferida, que eu publico em sua homenagem...
"As armas ensaia
Penetra na vida
Pesada ou querida
Viver é lutar
Se o duro combate
Os fracos abate
Aos fortes, aos bravos
Só faz exaltar"
Canção do Tamoio - Gonçalves Dias
Cenas dos próximos capítulos: Tia Cinda. Nina. Galerias. Cachorro Grande.
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Segunda-feira, Novembro 15, 2004
INTERROMPEMOS NOSSA PROGRAMAÇÃO NORMAL...
...Para apresentar o meu já querido Joca Oeiras. Fala Joca:
Carta aberta ao Jô Soares
Querido Jô
Não sei se já é de seu conhecimento mas, já faz alguns meses, eu venho desenvolvendo uma campanha intitulada "Joca no Jô", isto é, pedindo aos amigos, fãs e admiradores que escrevam para a produção do programa sugerindo que você realize uma entrevista comigo.
Ates de mais nada, deixe que eu me apresente, embora a sua produção já deva estar com o saco cheio de ouvir esta história. Meu nome é Joca Oeiras, o anjo andarilho. Muita gente sabe porque Joca Oeiras: Joca, de Joaquim e Oeiras por causa da maravilhosa cidade de Oeiras que foi a primeira capital do Piauí, cidade pela qual me apaixonei perdidamente a partir dos últimos dias do ano de 2002.
A origem do epíteto "Anjo Andarilho", no entanto, é muito pouco conhecida porque pouco divulgada. Quem me deu este apelido foi a carismática jornalista Socorro do Valle, que hoje reside em Piripiri, cidade onde nasceram os meus amigos Jorge Mello, cantor e compositor e João Cláudio Moreno, o humorista do Piauí que até já foi entrevistado por você, isto só para citar os piripirienses mais visíveis (fiz muitos outros amigos em Piripiri, uma terra progressista e hospitaleira)
Depois que soube que eu havia percorrido a pé cerca de 25 km de praias no litoral do Piauí e que, gordinho, com mais de cem quilos, acabei sofrendo uma big assadura em ambas as coxas, apesar de ter tomado muitos banhos de mar nu e de ter trocado as cuecas várias vezes, assim ela me chamou de "meu anjo andarilho" e assim passei a me chamar (mas sem o possessivo, é bom que se anote)
Depois desse "antes de mais nada" quero, enfim, explicar o porquê desta campanha e o que deseo dizer caso seja entrevistado por você.
Jô, eu tenho 56 anos e, em novembro, completo 57 anos. Você acreditaria se eu lhe dissesse que, pelo menos até os 53 anos eu considerava que não conhecia nenhum piauiense, que as únicas coisas que eu sabia do Piauí é que sua capital era Teresina e que a miséria grassava como uma praga neste Estado. Acredite, a desinformação com relação ao Estado do Piauí, o Estado mais charmoso do Brasil, é uma enormidade.
Depois de me apaixonar por Oeiras tomei a decisão de unir o meu destino ao do Piauí, que chamei de "o Estado mais charmoso do Brasil" e olha que, do Piauí, eu só conhecia Oeiras e, de passagem, Teresina. Já disse isto e repito: neste momento eu estava fazendo poesia e da mais alta qualidade. Mas o Piauí, de norte a sul, é pitoresco demais, fascinante demais, charmoso demais. No momento, encontro-me apaixonado pelo tão pequeno quanto belo litoral piauiense e pela histórica cidade de Parnaíba assim como fiquei encantado com São Raimundo Nonato e o parque nacional Serra da Capivara. Só de Oeiras eu podia passar o dia inteiro contando histórias. Mais que tudo, os amigos que eu fiz, gente da melhor qualidade que sabe que eu só falo a verdade.
Tornei-me, desta maneira, uma referência para muitos que compreendem a importância de resgatar a auto-estima do piauiense levada ao fundo do poço por uma campanha mentirosa (e odiosa) orquestrada não sei por quem nem porque ou a serviço de que propósitos.
Então é em nome da verdade e do resgate da auto-estima deste povo nobre e generoso que sou candidato a ser entrevistado no programa de entrevistas de maior audiência na tv brasileira, o Programa do Jô. Espero que isto seja possível o mais breve possível!
P.s.: Algumas pessoas, uma até me escreveu pedindo para eu desistir da campanha, acreditam que o Jô Soares não gosta do Piauí. Eu o considero apensa desinformado, aliás, como 95 por cento dos brasileiros. Mas isto tem cura: Joca Oeiras neles!
N.A.: Joca Oeiras, O Anjo Andarilho, é artista plástico e editor do tablóide "O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil". Esse texto foi originalmente publicado na 16ª edição do Café Literário, outro tablóide, gratuitamente distribuído na praça Benedito Calixto, em São Paulo. Se você quiser entrar na campanha "Joca no Jô", manda um email pro Jô. Pra falar com o próprio Joca: jocaoeiras@terra.com.br
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ju em 4:33 PM |
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Quinta-feira, Novembro 11, 2004
A DESVAIRADA NA PAULICÉIA
Capítulo 09: Praça Benedito Calixto. Sérgio Donato. Piola. + Funhouse. Danilo Menezes Lage. Comidinha. Os Sonhadores. Réquiem Para Um Sonho. Tarde Chuvosa.
Choveu a tarde quase toda. Uma chuvinha fininha e chatinha, mas que não é mais garoa porque a garoa é um pouco mais fininha e um pouco mais chatinha. Não que eu esteja reclamando. É só que chuvas fininhas e chatinhas, especialmente quando acompanhadas de um friozinho gostoso, acabam trazendo junto toneladas de preguiça. E quando parou de chover eu já tinha morrido de preguiça, abraçada ao "Alice no País do Espelho" e à minha querida "Simples", calçada nas pantufas do garfield e com a barriga cheia do brigadeiro que eu fiz ontem à noite e da pipoca de microondas que eu comprei pro Ju e esqueci de fazer na terça-feira. Vamos então esquecer que eu tinha que ir aos correios e passar no banco; vamos esquecer que mais uma vez eu não consegui pegar o meu livro e vamos esquecer também que eu tinha reservado a tarde de hoje pra ir naquele sebo lá na Augusta. Faz de conta que apertaram o pause antes do fim de semana. Até porque o show do Lali Puna de hoje foi cancelado.
Falando nisso, já contei que o fim de semana passado foi ótimo?
Eis que no sábado à tarde eu descobri um lugar perfeito em forma de praça: Benedito Calixto. Um lugar onde você pode encontrar vinis maravilhosos [ainda que você não tenha um tocador de vinil, ou vitrola ou radiola, que dá tudo no mesmo, na sua casa], antiguidades, roupas legais, pôsteres os mais lindos dos filmes, os mais clássicos; comida nordestina [embora o arrumadinho paulista seja um pouco, bem, diferente do arrumadinho paraibano], livros de arte, móveis antigos e modernos, máscaras de papel machê, bijuterias roubadas da avó de alguém, radiolas [ou vitrolas ou tocador de vinis, que dá tudo no mesmo] funcionando apropriadamente pra você tocar aqueles vinis e até mesmo um escritor piauiense assinando um livro sobre Torquato Neto e um Sérgio Donato que você não via há alguns meses. Um tipo desses bem desgraçados que não só esfrega na sua cara que viu o Kraftwerk, como ainda tem a cara de pau de perguntar se você não quer ver o vídeo que ele fez no supracitado show.
Na praça Benedito Calixto também tem uns botecos fofinhos, uma banda de música que toca dando voltas na praça em cima de bicicletas [adorei!] e o prédio do Ju. Ah! E antes de chegar na Benedito Calixto, se você vier pela rua Teodoro Sampaio, tem também várias lojas de instrumentos musicais. E se você passar por lá, ali por volta de três da tarde, pode ver também vários músicos se divertindo nessas lojas e fazendo trilha sonora pra quem passa por ali.
Pra completar o sábado, depois da chuvinha fina do fim da tarde e de algumas horas maravilhosas embaixo do oceano, fomos [eu, o Ju e o Igor], a convite de Sérgio Donato conhecer a Piola, que assim como a Funhouse, conquistou de primeira um lugar na minha lista de lugares preferidos em São Paulo. E nem foi só por causa do delicioso negocinho branco que eles servem lá. Mas é que o lugar, além de ser lindo [fator muito importante para uma arquiteta], é super charmoso, tem um bom atendimento, serve uma pizza ótima e ainda tem o delicioso negocinho branco. Em seguida, apresentamos a Funhouse para Donato [que alimenta planos maquiavélicos secretos adoráveis], tomamos meu delicioso e preferido drink de saque com morango, feito pelo melhor barmen blackpower do mundo, e encontramos com o Julian Casablancas disfarçado de traficante. Uma noite divertidíssima.
Domingo, almoço na casa do Ju. Mas antes uma passadinha em outra feirinha, que deveria até ter sido rápida não fosse a dificuldade pra escolher que almofada cinematográfica era a mais bonita: se a do Lost In Translation ou se a do Laranja Mecânica. No fim, depois de horas de discussão e já azuis de fome, escolhemos as duas. Isto não é uma metáfora; foi exatamente assim que aconteceu e a culpa não foi minha.
Segunda-feira é dia de encontrar um dos seus melhores amigos da vida, tomar fanta laranja [rápido antes que ele tome tudo], comer tortinha de morango e jogar conversa fora pela janela a tarde toda ao som de Cordel do Fogo Encantado [em homenagem ao show que eles vão fazer em Teresina dia 20]. Foi isso que eu e o Igor fizemos, e o Danilo passou a tarde aqui. Óbvio que o assunto principal foi a nossa tão sonhada casa de papel, e aí ao invés de conversa fora, foram sonhos que saíram pela janela, voando lá pro céu, gargalhando alto na esperança de serem realizados. Não muito por acaso, segunda-feira também foi dia de ir ver Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, com o Ju. Do filme eu posso dizer que, como um bom Bertolucci, é visualmente lindo; tem uma história interessante, uma fotografia beirando a perfeição e uma trilha sonora ótima. Da minha segunda-feira eu posso dizer que todo mundo devia ter amigos como os meus.
Amigos que, por exemplo, me mandam cupons promocionais da Blockbuster [thanks querida Meg], me dando a chance de ver, finalmente, o atordoante Réquiem Para Um Sonho e, mais uma vez [pra mostrar pro Ju] o perturbador [e lindo, não é Pumpkin?] Donnie Darko. O melhor da noite, no entanto, foi o puff barulhento e o boa noite assustador, embora involuntário [foi sem querer, eu juro!]
Quarta-feira dia de brincar de casinha, passar o dia inteiro sozinha e perceber as coisas boas da solidão. Já contei que aprendi a cozinhar? Um salto animador do miojo para o almoço completo, com arroz, filé de frango e salada, sem contar as batatas gratinadas e o penne ao molho branco do jantar, e o brigadeiro de colher de sobremesa. Minha mãe ficaria orgulhosa. Eu estou orgulhosa. Porque aprendi a cozinhar, e agora quero ser chef de cousine. Porque parei de roer as unhas. Porque não tenho mais aflição nenhuma em ficar sozinha. Porque estou feliz, embora confusa e sem saber direito o que vai ser.
Porque nunca mais senti falta de ar.
Cenas dos próximos capítulos: Sebo. Mirton de Paula. Galeria Ouro Fino. Nina. Lov.e.
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ju em 6:00 PM |
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Sábado, Novembro 06, 2004
A DESVAIRADA NA PAULICÉIA
Capitulo 08: Dj Club. + Atari. Eleição. Almodóvar. Fada madrinha de cabelos vermelhos e nome de estrela mais brilhante. Aulas de arroz.
Meu caso de amor com São Paulo vai bem obrigado. Típico começo de relacionamento: dia sim dia não descubro mais um motivo pra gostar dessa cidade. Pode ser um jeito de amanhecer, ou aquela árvore linda de flores roxas, que eu ainda não confirmei se é mesmo um ipê. Atualmente minha fascinação está na minha recém descoberta: a cultura do boteco. São Paulo está cheia de botecos. Especialmente em Vila Mariana, Vila Madalena e Moema. Botecos para todos os gostos: botecos simplesinhos, botecos bonitinhos, botecos sofisticados. E eles estão sempre cheios. Todos os dias da semana. De estudantes, nas esquinas das faculdades; de moderninhos ou intelectuais lá pela Vila Madalena; de pessoas mais sofisticadas nos mais sofisticados. E isso aos meus olhos tem cor de vida; ver as pessoas conversando, nos botecos, simplesinhos, fofinhos ou mais sofisticados, nas noites gostosas que tem feito por aqui. Típico começo de relacionamento: ainda não enxergo os defeitos da cidade. O caos ainda não me pareceu tão caótico; a poluição ainda não me fez arder os olhos sensíveis; a violência ainda não me assustou, ou pelo menos não me pareceu diferente ou pior do que a de Teresina. De fato, talvez tudo fique maior na televisão.
No meu quarto fim de semana em São Paulo fui [devidamente acompanha pelo Ju] conhecer o Dj Club e amanhecer o dia pela segunda vez no Atari; sem contar o convite no mínimo curioso que eu recebi para um beijo coletivo. Domingo de eleição, domingo de strogonoffe na casa da mãe do Ju [com direito a ameixa colhida no quintal de sobremesa] e domingo de justificar voto. Minutos, horas, embaixo do oceano. Cachorro quente no Blackdog. José Serra prefeito de São Paulo ["E agora? Você ainda quer morar aqui?" - sim Ju, eu quero mesmo assim]. Segunda-feira dia de terminar anteprojeto. Terça-feira dia de ir ver o Almodóvar, e devotar o meu amor a ele. Sim, ele fez de novo: Má Educação é foda. Tão foda que eu até me arrisco a apostar em alguns prêmios, inclusive para Gael Garcia Bernal.
À noite, minha fada madrinha de cabelos vermelhos e nome de estrela mais brilhante chegou pra passar a tropa em revista e me ensinar a fazer arroz [minha mãe ficaria orgulhosa]. Na programação mais uma manhã inteira no Mercado Municipal. A segunda vez é ainda melhor. (Top 5 coisas pra se fazer no Mercado Municipal de São Paulo: [1] comer - eu, humildemente, recomendo o pastel de palmito e o sanduíche de salame do Hocca. Coma no balcão e não se importe se você se lambuzar; [2] experimentar - algumas barracas são muito gentis e deixam você experimentar as frutas antes de comprar, outras nem tanto. Mas se você procurar direitinho da pra sair de lá sabendo o gosto de mais umas duas ou três coisas que você nunca tinha comido antes na vida; [3] aprender - acredite em mim, existem mais tipos de temperos, ervas e azeitonas do que sonha a nossa vã filosofia; [4] sentir - vá em frente, descubra que Amelie Polain tem toda razão, e enfie as mãos [limpas por favor] nos sacos de grão. Perceba como até mesmo a temperatura pode ser diferente dependendo do tipo de grão; [5] observar [e babar] - não tenha vergonha, olhe pra cima e babe com a arquitetura do Mercado Municipal, olhe para as pessoas e observe o brilho nos olhos e a vida em cada uma delas, olhe em volta e fique maravilhado com a diversidade de cores, cheiros e sabores). No dia seguinte café da manhã na Galeria dos Pães, e passeio pelas belas [e caras] lojas da Oscar Freire. Depois, Shopping Iguatemi [atenção Rita, eu vi a Mariana Weickert] e almoço no Alimentari, afinal minha fada madrinha adora fazer pesquisa gastronômicas. Pensa que a energia dela acabou por aí? Pois à noite ainda teve boteco e muitas gargalhadas. Dia seguinte e ela ainda teve pique pra fazer mais um almoço-aula, que eu acabei não podendo comer porque fui fazer uma entrevista de emprego.
Ai, emprego...
Eu vim a São Paulo quase pra passar férias. Seriam 20 dias. Lá se vão 34. E agora todos esses planos; todos esses currículos espalhados por aí. Toda essa vontade de ficar. Alguém pode pensar "mas ela não sente saudades?". Sinto. Mas a minha saudade e do tipo que manda buscar e não que me leva de volta. Minha vontade é maior. Vontade de ver, conhecer, provar. Vontade de mais. E com toda a minha imensa vontade e o aval da minha fada madrinha de cabelos vermelhos e nome de estrela mais brilhante, diga ao povo que fico.
Pelo menos até o dia dez de dezembro.
Cenas dos próximos capítulos: Benedito Calixto, Sérgio Donnato, Danilo Lage, respostas, Lalipuna (é assim que escreve mon petit?).
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Quinta-feira, Novembro 04, 2004
ENQUANTO ISSO, EM TERESINA...
|Devotchka: a última chance|
06|11.17H30.trilhos shows
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Segunda-feira, Novembro 01, 2004
INTERROMPEMOS NOSSA PROGRAMAÇÃO NORMAL...
[...para avisar que o quarto escuro agora está em novas instalações e para publicar um textinho despretensioso:]
Sozinho do outro lado do elevador
A expressão "música de elevador" já era velha conhecida de seus ouvidos. Mas ela podia jurar que nunca entrara em um único elevador sequer aonde tocasse música. Não que isso fosse um problema: as músicas iam com ela, as mais variadas, uma trilha sonora imensa, na cabeça. Então naquela volta pra casa ela vinha com a trilha sonora na cabeça. E por isso naquele elevador tinha música. Mas não era uma música chata, monota, desinteressante e sonolenta que a expressão "música de elevador" parecia querer significar, se é que ela bem entendeu. E embora ela sim, e não a música no elevador, estivesse com sono o bastante pra não se lembrar, podia jurar, enquanto bocejava, que era a músiquinha francesa da outra noite que não lhe saia dos ouvidos; aquela músiquinha francesa, que trazia pelas mãos, por entre as linhas, uma das imagens dele que ela escolheu pra guardar. Literalmente num piscar de olhos, arrumou a mochila que trazia nas costas, e que a impedia de se encostar mais confortavelmente, e na volta da própria mão olhou displicente para o esmalte nas unhas. Em outro piscar se deu conta de onde tinha conseguido aquele curioso cisco cor de rosa que ele tirou do meio de seus cílios invejosos. Os dele eram tão mais bonitos. Outra imagem que ela escolheu pra guardar. Como as fotos confessamente roubadas. Como o momento em que a porta se abriu. Como a fila. Riu do cisco cor de rosa. Riu por dentro só, preguiçosa, sem mexer um músculo sequer da face. A músiquinha francesa e o cisco cor de rosa em meio aos cílios agora, em outro piscar, estavam ao mesmo tempo. De modo que, considerando a velocidade do pensamento, era, basicamente, nele que ela pensava no exato momento em que o mesmo ele perguntou, assim mesmo, o motivo de ter sido abandonado, por todos aqueles "piscar de olhos"; abandonado sozinho do outro lado do elevador.
Próxima atração: mais um capítulo de "A Desvairada na Paulicéia".
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